Aeroporto de Itabira parece, à primeira vista, uma daquelas histórias que sobrevivem mais na lembrança de quem viveu outros tempos do que nos olhos de quem vê a cidade hoje. Para muita gente, soa quase improvável imaginar aviões pousando por aqui, ainda que em estrutura pequena, simples e distante do que hoje se entende como aeroporto. Mas essa história existiu, e ela ajuda a revelar uma Itabira que mudava depressa, empurrada pela mineração, pelo avanço da infraestrutura e por um novo papel que a cidade começava a ocupar em Minas Gerais.
O antigo campo de aviação de Itabira nasceu nesse ambiente de transformação. A cidade deixava de ser apenas o espaço das tradições familiares, da vida mais lenta e da paisagem interiorana para entrar, aos poucos, em uma lógica mais dura, mais industrial e mais estratégica. Não era uma mudança pequena. Era uma alteração profunda na forma como Itabira se via e como passava a ser vista. O campo de aviação, nesse cenário, não era só uma curiosidade. Ele fazia parte de uma cidade que crescia e que começava a se conectar de outro jeito com o mundo ao redor.
Naquela fase, Itabira já não era apenas a terra das famílias antigas, das ruas conhecidas e da memória afetiva. A mineração mudava o ritmo local, alterava a paisagem e empurrava a cidade para uma nova realidade. O que antes podia parecer distante, como a ideia de um avião pousando em solo itabirano, passava a fazer sentido dentro de uma lógica de progresso, circulação e interesse econômico. O antigo campo de aviação simbolizava exatamente isso: uma cidade que saía de uma escala antiga e passava a viver outra.
E talvez seja justamente por isso que essa história carregue um peso maior do que parece. Porque ela não fala apenas de uma pista, de aviões ou de uma estrutura esquecida pelo tempo. Ela fala de uma mudança de era. Fala do momento em que Itabira começava a ficar diferente de si mesma. Fala da cidade que crescia, mas que, ao crescer, também deixava para trás uma parte importante da própria identidade.
É nessa altura que a presença de Carlos Drummond de Andrade torna tudo mais forte.
Poucos nomes carregam Itabira de forma tão profunda quanto Drummond. A cidade atravessa sua obra, sua memória e sua sensibilidade de um jeito quase inevitável. Itabira não foi apenas o lugar onde ele nasceu. Foi também um espaço de conflito íntimo, de afeto, de estranhamento e de saudade. Em muitos sentidos, Drummond nunca saiu totalmente daqui. Mesmo longe, continuou carregando a cidade dentro de si — às vezes como doçura, às vezes como ferida.
Por isso, a última vez em que o poeta voltou a Itabira tem uma força especial. Não foi uma volta celebrada, festiva ou pública. Não foi um retorno para rever a cidade com calma, reencontrar pessoas ou revisitar a infância. Foi uma volta marcada pela dor. Em 1954, Drummond retornou para acompanhar a exumação dos restos mortais da mãe. Era uma viagem breve, pesada, íntima. Uma daquelas passagens que, por si só, já bastariam para marcar uma biografia.
A cena é poderosa justamente porque não precisa de exagero. O filho mais ilustre de Itabira voltava à cidade não para receber homenagens, mas para enfrentar um adeus. Não para reviver lembranças felizes, mas para cumprir um gesto silencioso de despedida. A terra natal, tantas vezes transformada em poema, aparecia de novo diante dele em um momento de luto e recolhimento. Era uma volta sem brilho, sem celebração, sem a leveza que normalmente acompanha os reencontros.
E há algo ainda mais forte nisso tudo: essa despedida acontece numa Itabira já modificada. A cidade que Drummond reencontrava em 1954 já não era apenas a Itabira antiga guardada na memória da infância. Era também uma cidade transformada pela mineração, pela nova lógica econômica e por uma mudança que mexia com o seu corpo e com sua alma. A cidade íntima da família convivia, naquele momento, com a cidade do minério, da pressa, da modernização e das perdas.
É nesse ponto que a história do antigo campo de aviação ganha outro tamanho. Ele deixa de ser apenas um detalhe curioso do passado e passa a funcionar quase como símbolo dessa nova Itabira. Uma cidade em que aviões podiam pousar. Uma cidade que já se colocava dentro de outra escala de importância. Uma cidade que se modernizava, mas que, no meio desse processo, também assistia ao enfraquecimento de muitos dos vínculos afetivos que a definiam antes.
Assim, o campo de aviação e a volta final de Drummond parecem pertencer à mesma paisagem emocional. De um lado, a cidade do progresso material, da infraestrutura e da ambição. Do outro, a cidade da memória, da família e da dor. As duas coexistem. As duas se encostam. E talvez seja justamente desse choque que nasce uma parte importante da história de Itabira.
Porque Itabira sempre foi mais do que um retrato simples. A cidade nunca coube apenas no orgulho do desenvolvimento, assim como também nunca coube apenas na nostalgia do passado. Ela é feita dessas camadas. É feita da força econômica que a projetou e também das perdas que esse processo trouxe. É feita do minério e da lembrança. Do avanço e da ausência. Do que foi construído e do que ficou para trás.
Drummond entendeu isso como poucos. Sua relação com Itabira nunca foi plana. Havia amor, mas havia incômodo. Havia pertencimento, mas havia distância. Havia raízes, mas também uma sensação permanente de ruptura. Quando ele voltou pela última vez, não retornava apenas a uma cidade física. Retornava também a tudo aquilo que Itabira representava para ele: origem, peso, família, ausência e memória.
Talvez por isso essa seja uma história tão boa de ler e tão forte de guardar. Porque ela junta dois movimentos muito humanos. O primeiro é o da cidade que muda e não consegue mais ser exatamente como antes. O segundo é o da pessoa que volta ao lugar de origem e percebe, mesmo sem dizer, que o tempo alterou tudo. Em Itabira, esses dois movimentos se encontram de forma quase dolorosa.
O antigo aeroporto, ou melhor, o antigo campo de aviação, aparece então como peça de uma narrativa maior. Ele não interessa apenas porque existiu. Interessa porque ajuda a contar um momento em que Itabira atravessava uma mudança profunda. E, no meio dessa mudança, o retorno derradeiro de Drummond torna tudo ainda mais simbólico. O poeta voltava à terra natal não para buscar a Itabira que amou, mas para se despedir de uma parte dela.
No fim, a força dessa história está justamente aí. Não é uma história sobre aviação no sentido frio da palavra. Também não é apenas uma história literária. É uma história sobre tempo, transformação e memória. Sobre o que uma cidade ganha quando cresce, e sobre o que ela perde sem perceber. Sobre o que permanece vivo mesmo depois que tudo parece ter mudado. E sobre como certos episódios, mesmo discretos, conseguem revelar a alma de um lugar inteiro.
Talvez seja por isso que a pergunta “Itabira já teve aeroporto?” continue despertando tanta curiosidade. Porque, no fundo, ela abre caminho para algo maior. Abre caminho para uma Itabira que ainda conversa com o próprio passado. Uma Itabira que já viu aviões, que já viu partidas, que já viu despedidas. Uma Itabira em que o avanço do mundo moderno nunca apagou completamente o peso da memória.
E, entre essas memórias, poucas são tão fortes quanto a imagem de Drummond voltando uma última vez. Não para celebrar. Não para ficar. Não para recomeçar. Mas para fechar um ciclo. E talvez seja justamente por isso que essa passagem continue tocando tanto quem olha para a história da cidade com mais atenção.






































































