Estrada Prefeito Luiz Menezes em Itabira não é só um trecho de passagem. Para muita gente, ela é apenas a velha estrada do Carmo, caminho de rotina, de trabalho, de visita aos distritos, de pressa e de memória. Mas basta parar por um instante e olhar com mais calma para o nome da via para surgir uma pergunta que vale a leitura inteira: afinal, quem foi Luiz Menezes para receber uma homenagem tão marcante em Itabira?
A resposta começa com uma curiosidade que já diz muito sobre o tamanho do personagem. Nas fontes atuais, o nome de Luiz Menezes aparece ligado a mais de uma referência viária importante da cidade. Em 2004, uma lei estadual oficializou como Rodovia Deputado Luiz Menezes o trecho da MG-129 que liga Itabira à BR-381. Ao mesmo tempo, em registros mais recentes sobre o acesso a Senhora do Carmo e Ipoema, a AMG-1240 aparece chamada de rodovia municipal Prefeito Luiz Menezes em algumas publicações e de Rodovia Deputado Luiz Menezes em outras. Esse cruzamento de nomes sugere que, em Itabira, a memória de Luiz Menezes acabou ficando maior do que o próprio cargo pelo qual ele era lembrado.
E talvez isso faça sentido, porque a vida de Luiz Menezes foi tudo menos pequena. Ele nasceu em Itabira em 10 de outubro de 1919, filho do dentista Francisco Ozório de Menezes e de Maria da Piedade Lage de Menezes. A própria Câmara de Itabira, quando defendeu a criação do Ano Municipal do Centenário de Luiz Menezes, o descreveu como ex-vereador, ex-prefeito e ex-deputado estadual, além de um homem à frente de seu tempo. Não é exagero de homenagem póstuma. Quando se vai montando a trajetória dele, a impressão é justamente essa: Luiz Menezes parecia incapaz de ficar parado.
A juventude dele ajuda a explicar muita coisa. Luiz Menezes estudou no Grupo Escolar Coronel José Batista, passou pelo Ginásio Sul-Americano e fez o curso científico em Ouro Preto. Depois seguiu para Alfenas, onde se formou cirurgião-dentista em 1942. O caminho, porém, esteve longe de ser confortável. Relato resgatado em texto memorialístico sobre sua vida mostra que ele enfrentou aperto financeiro, trabalhou como vendedor de loteria em Belo Horizonte, garçom e porteiro de cinema em Ouro Preto, além de faxineiro na escola onde estudava. Antes de virar nome de rodovia, Luiz Menezes foi um rapaz itabirano tentando abrir espaço na marra, com estudo, insistência e muito trabalho.
Quando voltou a Itabira já formado, não veio com ambição pequena. Entre 1943 e 1947, exerceu a odontologia na cidade e na região. Depois passou também pelo Exército Brasileiro, trabalhando como dentista numa fase em que serviu na fronteira do Brasil com Paraguai e Argentina. Foi nesse período que conheceu a esposa, Célia Melles de Menezes. Com ela teve três filhos: Maria Glória, Paula e Luiz Paulo. A vida pública viria depois, mas o Luiz Menezes que a cidade conheceu primeiro foi o profissional, o homem de conversa fácil, de presença forte e de vínculo evidente com a terra natal.
Esse vínculo com Itabira não ficou só no discurso. Ele foi cirurgião-dentista da Prefeitura de Itabira por décadas, atuou também junto ao Sindicato dos Ferroviários e ao Sindicato dos Servidores do DER e se envolveu em iniciativas que ajudaram a modernizar a cidade. Foi fundador da Companhia Telefônica de Itabira, com expansão dos serviços para Santa Maria de Itabira e Ferros. Também participou da fundação da Fide e da Empresa de Transporte Coletivo de Itabira, em 1968. Em outras palavras, Luiz Menezes não foi apenas um político que passou pela Prefeitura. Ele estava ligado a áreas decisivas da vida urbana: comunicação, ensino, transporte e serviço público.
Há um ponto da história dele que ajuda a entender por que o nome ainda desperta curiosidade em Itabira: Luiz Menezes tinha gosto por construir coisas que permanecessem. Na área da radiodifusão, implantou as duas primeiras emissoras da cidade, a Rádio Itabira AM e a Rádio Antártida FM. Em relato resgatado pela imprensa local, ele lembrava com orgulho da batalha para conseguir a concessão e colocar uma emissora no ar em uma Itabira que ainda não tinha esse tipo de estrutura. A rádio entrou no ar em 1984 e a Antártida FM começou a funcionar no ano seguinte. Não era pouca coisa. Em uma cidade em transformação, abrir caminho para telefonia, transporte coletivo e radiodifusão era interferir diretamente no cotidiano de milhares de pessoas.
A política, então, quase parece consequência natural. Luiz Menezes foi vereador em Itabira por dois mandatos, de 1959 a 1962 e de 1963 a 1966. Décadas depois, seria prefeito entre 1989 e 1992. Mais tarde, em 1998, foi eleito deputado estadual com 22.529 votos e exerceu o mandato na 14ª Legislatura, entre 1999 e 2003. Na Assembleia, chegou a apresentar projeto voltado à criação da Ouvidoria de Saúde da Mulher de Minas Gerais. A cidade não lembraria dele apenas como um homem popular, mas como alguém que conseguiu transformar capital político em presença institucional de verdade.
Mas é no período como prefeito que a ligação entre Luiz Menezes e certas paisagens de Itabira fica ainda mais forte. Em justificativa aprovada na Câmara de Itabira, são atribuídas à gestão dele obras e ações como a construção do Pronto-Socorro Municipal, postos médicos, a avenida Ozório Sampaio, implantação de água potável em Senhora do Carmo e Ipoema, criação do serviço de coleta seletiva na cidade, asfaltamento de acesso ao parque de exposições, além de reforma e construção de escolas municipais. Na área esportiva, o mesmo documento registra que ele gramou e cercou com tela todos os campos de futebol da cidade. É o tipo de legado que sai do papel e vira geografia urbana.
Há ainda uma faceta menos lembrada, mas muito importante: a ambiental. Em 1989, diante da ameaça de destruição da mata do Limoeiro, em Ipoema, Luiz Menezes tomou a decisão de fazer o tombamento municipal da área, tornando-a imune ao corte. Décadas depois, esse gesto passou a ser lembrado como parte do processo que ajudou a preservar o território e abrir caminho para a consolidação do Parque Estadual Mata do Limoeiro. Isso diz bastante sobre o tipo de administrador que ele também foi: alguém capaz de olhar para o futuro de Itabira além do imediato.
Talvez por isso o nome dele tenha se colado tão bem às estradas. Estrada é ligação. Estrada é acesso. Estrada é movimento entre um ponto e outro. E Luiz Menezes, pelo que a própria história mostra, foi justamente um homem de ligação: entre Itabira e seus distritos, entre o passado mais simples da cidade e uma fase de modernização, entre a política tradicional e ações concretas que mexeram no dia a dia da população. Não por acaso, a AMG-1240 segue sendo eixo importante para quem vai em direção a Senhora do Carmo e Ipoema, enquanto a homenagem oficial na MG-129 mantém o nome dele no mapa estadual.
No fim das contas, a pergunta inicial encontra uma resposta simples e forte. A estrada carrega o nome de Luiz Menezes porque Itabira decidiu não deixar esse personagem virar nota de rodapé. Ele foi dentista, empreendedor, comunicador, vereador, prefeito, deputado e articulador de mudanças que tocaram áreas essenciais da cidade. Em 2019, o município ainda reconheceu oficialmente o centenário dele, reforçando que sua memória seguia viva na história itabirana.
E talvez seja isso que faz esse nome continuar chamando atenção. Muita rua homenageia alguém. Muita avenida carrega um sobrenome conhecido. Mas nem toda estrada consegue provocar a sensação de que existe uma vida inteira escondida atrás da placa. No caso de Luiz Menezes, existe. E quanto mais se olha para essa história, mais a homenagem parece fazer sentido. Porque antes de virar nome de rodovia, ele já tinha virado parte do caminho de Itabira.






































































