Coronel José Batista em Itabira não começa com um prédio. Começa com uma cidade.
No início do século passado, Itabira ainda tinha outro rosto. O Centro era feito de construções mais simples, erguidas com madeira, barro, adobe e pau a pique, numa paisagem que hoje só sobrevive em fotografias, relatos antigos e alguns traços preservados da memória urbana. As ruas tinham outro ritmo, a vida corria mais devagar e a cidade parecia se organizar em torno de poucos pontos essenciais: a igreja, as casas das famílias tradicionais, os espaços de poder e os primeiros lugares onde a educação começava a ganhar forma.
Era nesse ambiente que surgia uma Itabira que ainda não conhecia o peso do próprio futuro.
Em 1907, aquela cidade viu nascer uma de suas instituições mais importantes. Foi naquele ano que surgiu o Grupo Escolar Doutor Carvalho de Brito, marco da educação pública local e ponto de partida de uma história que atravessaria gerações. O nome mudaria mais tarde. O prédio também não permaneceria o mesmo. Mas alguma coisa ali se fixou de forma definitiva na alma da cidade.
Com o passar do tempo, a escola passou a ser conhecida como Coronel José Batista, nome que acabaria se tornando um dos mais tradicionais de Itabira. E não demorou para aquele espaço deixar de ser apenas um lugar de ensino. Aos poucos, ele se transformou em símbolo. Em memória. Em referência para quem aprendeu a ler, a escrever e a crescer olhando para aquele pedaço do Centro como parte natural da própria vida.
Mas, para entender o peso desse nome, é preciso imaginar a cidade daquela época.
Não havia a Itabira de hoje, marcada por trânsito, comércio intenso, pressa e movimento contínuo. O que existia era uma cidade interiorana, de traços ainda coloniais, com casarões, sobrados e construções modestas, onde o pau a pique não era exceção, mas parte do cenário comum. O barro nas paredes fazia parte da paisagem. A madeira sustentava não só as casas, mas um modo de vida inteiro. Tudo parecia mais próximo, mais concentrado, mais humano.
O espaço onde mais tarde a escola se tornaria tradição pertencia a esse mundo.
Quando se fala em um prédio antigo de pau a pique ligado à origem daquele ponto, a imagem não soa distante. Pelo contrário. Ela encaixa perfeitamente na Itabira de então. Antes da solidez das construções posteriores, antes da ideia de patrimônio, antes do peso simbólico que o lugar ganharia, havia ali uma cidade ainda em formação, moldada com os materiais e os conhecimentos do seu tempo.
Depois veio 1907.
A criação do grupo escolar representava muito mais do que a inauguração de um prédio. Era um sinal de mudança. Em cidades do interior, naquele começo de século, fundar uma escola pública organizada significava apostar no futuro de maneira concreta. Era uma forma de dizer que a cidade queria crescer com outra estrutura, com outro horizonte, com mais método e com mais permanência.
A escola nasceu nesse espírito.
Nasceu quando Itabira ainda era pequena o suficiente para carregar a sensação de que tudo estava perto. Nasceu quando estudar era, para muitas famílias, um caminho de esperança e distinção. Nasceu quando a cidade ainda guardava muito da aparência antiga, mas começava a ensaiar os passos de uma nova fase.
Foi nesse ambiente que o nome de Coronel José Batista se ligou à história da instituição.
Figura importante da vida pública local, ligado à fundação da escola e à estrutura política de seu tempo, ele acabou eternizado em um espaço que sobreviveria muito além das disputas e dos cargos. Como acontece com frequência nas cidades mineiras, o nome do personagem atravessou o tempo porque se prendeu a algo maior do que sua biografia individual. Ele ficou associado a uma obra viva. E obras vivas permanecem quando o resto muda.
A história, porém, não andou em linha reta desde 1907.
O grupo escolar que nasceu com o nome de Carvalho Britto atravessou décadas vendo Itabira mudar ao redor. O tempo correu, a cidade ganhou outros contornos, novas tensões, novas necessidades, e a escola foi ficando no meio dessa transformação, como quem observa tudo sem sair do lugar. Em 1918, o nome da instituição mudou. O antigo Grupo Escolar Carvalho Britto passava a se chamar Grupo Escolar Coronel José Batista. Não era apenas uma troca de placa. Era mais uma camada sendo colocada sobre a memória daquele espaço, que aos poucos deixava de ser só escola para se tornar tradição.
Mas a mudança maior ainda estava por vir.
Quando os anos 1950 chegaram, Itabira já não era a mesma cidade do começo do século. O velho cenário de construções mais simples e feição antiga começava a ceder espaço a uma cidade que queria se reorganizar. E o Coronel José Batista sentiu isso de perto. Registros oficiais mostram que a escola seguia viva e funcionando em 1957 e 1958, já sob a direção de Filomena Jardim, o que ajuda a enxergar esse período não como um vazio, mas como um momento de transição, de permanência e de expectativa.
É nesse ponto que a história fica ainda mais interessante.
Há registros preservados na memória local que apontam que o prédio antigo foi demolido e que o novo edifício foi reconstruído e inaugurado em 23 de outubro de 1958. A imagem que isso cria é forte: a velha escola, carregada de passado, cedendo lugar a uma nova estrutura, mais alinhada ao tempo que chegava. Como se Itabira, mais uma vez, mexesse nas paredes sem conseguir tocar no que realmente importava.
Porque o que estava sendo reconstruído ali não era só um prédio.
Era a continuidade de uma memória. Era a insistência de um nome. Era a sobrevivência de um ponto da cidade que já havia atravessado a fase do pau a pique, o nascimento do ensino público organizado, a infância de Drummond e, agora, também uma nova reformulação física no fim dos anos 1950. A fachada podia mudar. O endereço podia se renovar. Mas o sentido do lugar continuava intacto.
Só que a história do Coronel José Batista em Itabira ganha ainda mais força quando um menino entra em cena.
Entre 1910 e 1913, Carlos Drummond de Andrade estudou ali. Não o Drummond conhecido pelo Brasil, não o poeta consagrado, não o homem que transformaria Itabira em literatura. Era apenas um garoto itabirano, em seus primeiros anos de formação, entrando para a rotina escolar sem imaginar que um dia seu nome atravessaria o país.
Pensar nisso muda tudo.
De repente, a escola deixa de ser apenas uma instituição centenária e passa a ter outra densidade. Seus corredores, suas salas e seu pátio passam a ser vistos como cenário de infância. Como parte silenciosa da formação de alguém que mais tarde escreveria versos capazes de eternizar a cidade e suas dores, seus vínculos, suas ausências e sua memória.
Há algo de bonito nisso.
A ideia de que uma criança atravessou aquele espaço sem saber quem viria a ser. A ideia de que uma escola no coração de uma cidade mineira guardou, sem perceber, um pedaço inicial da trajetória de um dos maiores nomes da literatura brasileira. A ideia de que a grandeza, muitas vezes, começa em lugares simples, discretos e cotidianos.
Mas o tempo não costuma preservar tudo da mesma forma.
O prédio original da escola não atravessou intacto os anos. Em algum momento posterior, ele foi demolido, e a estrutura atual passou a ocupar esse lugar de referência. A escola permaneceu, o nome permaneceu, a memória permaneceu, mas a matéria física foi sendo renovada conforme a cidade também mudava.
Esse detalhe faz a história ficar ainda mais humana.
Porque mostra que nem sempre a permanência está na parede. Às vezes ela está no significado. No modo como um lugar continua vivendo na lembrança coletiva, mesmo depois de ter sido alterado. A escola que hoje se vê no Centro não é exatamente a mesma construção que testemunhou o começo de tudo, mas continua sendo, para Itabira, o mesmo ponto de memória.
E talvez seja justamente isso que dá força ao Coronel José Batista.
Ele atravessou a passagem entre duas cidades. De um lado, a Itabira antiga, de pau a pique, barro e madeira, com feição mais colonial e vida mais concentrada. Do outro, a Itabira que começava a modernizar sua educação, consolidar suas instituições e redesenhar seu espaço urbano. A escola ficou no meio desse caminho, como uma espécie de ponte entre o que a cidade foi e o que a cidade queria se tornar.
Ao longo das décadas, gerações passaram por ali.
Crianças que depois viraram pais. Pais que depois viraram avós. Famílias inteiras que carregaram a escola dentro da própria história. Em cidades como Itabira, instituições antigas não são apenas instituições. Elas entram no vocabulário afetivo. Viram ponto de referência, tema de conversa, lembrança de infância, marca de pertencimento. Dizer “Coronel José Batista” nunca foi apenas indicar um lugar. Foi também acionar uma memória.
Talvez por isso o nome soe tão forte ainda hoje.
Ele não pertence apenas ao passado. Continua vivo no presente porque foi costurado à identidade do Centro e à formação de gerações inteiras. Há nomes que sobrevivem em placas. Outros sobrevivem em documentos. Alguns poucos conseguem sobreviver na fala cotidiana das pessoas. O Coronel José Batista pertence a esse grupo.
E, no fundo, essa história também conta outra coisa.
Conta como Itabira foi sendo construída em camadas. Primeiro a cidade de barro, de madeira, de pau a pique. Depois a cidade das instituições públicas mais organizadas. Depois a cidade que cresceu, reformou, demoliu, reconstruiu e seguiu em frente. Cada fase deixou um rastro, e o Coronel José Batista parece concentrar vários deles num único ponto.
Quem passa apressado talvez veja só uma escola antiga no Centro.
Mas quem olha com mais calma enxerga o começo de uma cidade que ainda estava aprendendo a ser cidade. Enxerga uma paisagem em que o pau a pique fazia parte da vida comum. Enxerga o nascimento de um grupo escolar em 1907, quando estudar começava a ganhar outra dimensão em Itabira. Enxerga um menino chamado Carlos Drummond de Andrade entrando para a aula sem saber que um dia carregaria a cidade na poesia. Enxerga a demolição do prédio original, a renovação da estrutura e a permanência de um nome que não se perdeu.
É por isso que a história do Coronel José Batista não cabe numa placa, numa data ou numa fachada.
Ela cabe numa travessia.
Na travessia de uma Itabira antiga para uma Itabira mais organizada.
Na travessia de uma construção simples para uma instituição duradoura.
Na travessia de uma memória local para uma história que ajuda a entender a própria formação da cidade.
No fim, o Coronel José Batista continua de pé não apenas como escola, mas como símbolo de permanência em uma cidade que mudou muito sem deixar de carregar seus nomes mais profundos. E talvez a força dessa história esteja exatamente aí: no fato de que, por trás de um prédio conhecido, existe uma Itabira inteira esperando para ser lembrada.






























































