Getúlio Vargas e Itabira se encontram num dos capítulos mais decisivos da história da cidade. Não é exagero. Em poucos meses, no início da década de 1940, o nome de Itabira foi trocado, o minério virou questão estratégica de Estado, a futura Vale nasceu ligada diretamente ao município e a cidade entrou de vez no mapa do projeto nacional de industrialização. O que parece hoje apenas um detalhe de livro de história, na verdade mudou o rumo econômico, político e simbólico de Itabira por gerações.
Para entender esse peso, primeiro é preciso lembrar quem era Getúlio Vargas naquele Brasil. Nascido em São Borja, em 1882, ele foi a figura política central do país em boa parte do século XX, governando entre 1930 e 1945 e depois voltando à Presidência em 1951, onde permaneceria até 1954. Seu nome ficou ligado à centralização do poder, à industrialização, à legislação trabalhista e a uma visão de Estado forte. Em Itabira, porém, o elo com Getúlio não nasceu de comício, nem de discurso em praça. Nasceu de decretos, de minério e de guerra.
Antes de Vargas, Itabira já era cobiçada havia muito tempo. Em 1911, a Itabira Iron Ore Company foi autorizada a funcionar no Brasil para explorar as jazidas do município. O interesse era gigante: a região reunia algumas das maiores reservas de minério de ferro do país, e o controle da Estrada de Ferro Vitória a Minas era peça-chave para escoar essa riqueza até o litoral. Mas a exploração do minério de Itabira virou assunto sensível desde cedo, porque o Brasil resistia à ideia de ver uma riqueza daquele tamanho sair para o exterior sem contrapartida industrial forte dentro do próprio país.
Com a chegada de Getúlio ao poder após a Revolução de 1930, esse jogo começou a virar. Em maio de 1931, o governo federal declarou a caducidade do contrato da Itabira Iron Ore. A disputa ainda se arrastou, mas, em agosto de 1939, a caducidade foi declarada de forma irrevogável. Era um movimento claro: o governo Vargas queria submeter o destino das jazidas de Itabira a um projeto nacional, e não deixá-las apenas nas mãos de grupos privados estrangeiros. A cidade, sem ainda medir o tamanho da virada, estava no centro de uma disputa que misturava soberania, indústria e estratégia econômica.
Então veio 1942, e com ele o capítulo mais conhecido dessa história. Em meio à Segunda Guerra Mundial, os chamados Acordos de Washington levaram à transferência das jazidas de Itabira para o governo brasileiro. No mesmo contexto, Getúlio Vargas assinou o decreto-lei que criou a Companhia Vale do Rio Doce. A empresa nasceu vinculada à exploração das minas de Itabira e ao tráfego da Estrada de Ferro Vitória a Minas, com objetivo estratégico claro: fornecer minério de ferro num momento decisivo para os Aliados e, ao mesmo tempo, acelerar a industrialização do Brasil. Não é por acaso que a própria Vale registra que nasceu em 1º de junho de 1942, em Itabira, durante a gestão Vargas.
Há um detalhe dessa criação que torna a ligação entre Getúlio Vargas e Itabira ainda mais forte e curiosa. O decreto que aprovou os estatutos da nova companhia estabeleceu que o domicílio jurídico seria o Rio de Janeiro, mas o lugar da administração seria a cidade de Itabira. Em outras palavras, o coração operacional daquela nova gigante nascia apontado para a terra do minério. E mais: a empresa foi estruturada já com dois grandes eixos, o Departamento da Estrada de Ferro Vitória-Minas e o Departamento das Minas de Itabira. A cidade deixava de ser apenas origem de uma riqueza mineral e passava a ser peça formal de um projeto estatal de grande escala.
Mas talvez nada simbolize tanto esse momento quanto o fato de Itabira ter perdido o próprio nome. Em 13 de junho de 1942, o governo de Minas editou decreto-lei mudando a denominação do município para Presidente Vargas. O texto é revelador: dizia que a mudança era uma homenagem ao presidente por ter solucionado, com os acordos ligados às jazidas de Itabira e ao desenvolvimento do Vale do Rio Doce, um dos maiores problemas econômicos de Minas Gerais. Foi um gesto pesado, quase dramático. A cidade que dava ao Brasil uma de suas maiores riquezas minerais passava, oficialmente, a carregar o nome do homem que destravou esse destino. Só que a mudança não seria eterna. Após forte mobilização popular, o município retomou o nome Itabira em 1947.
Enquanto isso, a transformação saía do papel e entrava na paisagem. A própria história da Estrada de Ferro Vitória a Minas mostra que o traçado original nem passava por Itabira. Com a criação da Vale e a reorganização do projeto mineral, a ligação ferroviária ganhou corpo, e em 1943 foram entregues as estações que faltavam para completar o trajeto até o município, incluindo três estações em Itabira. A cidade que durante décadas foi objeto de disputa mineral passou a ser, enfim, integrada de forma concreta ao sistema mina-ferrovia-porto que moldaria sua economia nas décadas seguintes.
É aqui que a história fica mais interessante, porque ela não é simples. Para muita gente, Getúlio Vargas foi o presidente que ajudou a colocar Itabira no centro de um novo ciclo de desenvolvimento. E isso tem base real: a criação da Vale, a estrutura ferroviária e a força econômica da mineração redefiniram o peso da cidade em Minas e no Brasil. Mas a mesma decisão que trouxe centralidade também aprofundou uma dependência histórica. Não por acaso, mais de 80 anos depois, a própria cidade se organiza em torno de planos voltados ao futuro pós-mineração, reconhecendo que a vida econômica de Itabira foi moldada profundamente por esse ciclo iniciado lá atrás.
No fim, a relação entre Getúlio Vargas e Itabira é dessas que não cabem numa frase curta. Ele não foi apenas um presidente citado em aula de história. Foi o nome por trás da decisão que nacionalizou as jazidas, criou a Vale, reorganizou a ferrovia e, por alguns anos, até substituiu o nome da cidade. Itabira voltou a ser Itabira. Mas o mundo inaugurado naquele 1942 nunca mais foi desfeito. Talvez essa seja a imagem mais forte de todas: o nome de Getúlio saiu do mapa oficial do município, mas sua marca continuou cravada no subsolo, na economia e na própria ideia de destino da cidade.





























































