Violência contra a mulher em Itabira deixou de ser apenas um tema de campanha e virou uma ferida aberta na cidade. Levantamento com base nos dados do Portal da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, a partir dos prints enviados à reportagem, mostra 921 registros em 2024, 961 em 2025 e 177 apenas em janeiro e fevereiro de 2026, com fevereiro ainda parcial. No total, são 2.059 ocorrências em pouco mais de dois anos. Janeiro de 2026, sozinho, teve 101 casos, a pior marca mensal de todo o recorte.
No recorte específico de feminicídio e feminicídio tentado em Itabira, os dados mostram 11 episódios entre 2019 e 2025. São seis casos consumados, nas datas de 18/07/2019, 09/11/2019, 14/10/2021, 25/12/2021, 13/07/2022 e 15/03/2025, além de cinco tentativas registradas em 28/02/2020, 10/10/2021, 30/04/2022, 28/09/2022 e 18/02/2025.
O caso mais antigo do levantamento consumado é de 18 de julho de 2019. Elizabeth Aparecida Gonçalves, de 47 anos, teve o corpo incendiado enquanto estava na casa de um vizinho, na rua Beta, no bairro Água Fresca. Segundo a imprensa da época, o autor foi o ex-marido, Antônio Carlos Gonçalves, de 49 anos. O ataque ainda matou o aposentado Antônio Brito da Silva, de 78 anos, que também foi atingido pelas chamas.
Poucos meses depois, em 9 de novembro de 2019, outro caso abalou Itabira. A adolescente Natiene Maria da Silva, de 14 anos, foi assassinada na Serra dos Alves, distrito de Senhora do Carmo. O corpo foi encontrado em um córrego, e um homem de 32 anos confessou o crime. Em relatos publicados depois, a morte foi descrita como asfixia após uma discussão.
No dia 14 de outubro de 2021, Darliele Ster de Oliveira, de 26 anos, foi encontrada estrangulada dentro de uma residência na rua dos Comerciantes, no bairro Gabiroba. A Polícia Militar foi acionada por volta de 12h30. De acordo com a cobertura local, o suspeito fugiu na motocicleta da vítima, levando também dinheiro e celular, e foi preso no dia seguinte. As reportagens apontaram que Darliele era sobrinha da ex-companheira do suspeito e que o crime pode ter sido motivado por vingança.
No Natal de 2021, Itabira voltou a entrar para essa estatística cruel. Greiciele Santos, de 25 anos, foi morta com golpes de facão na localidade dos Gatos, na madrugada de 25 de dezembro. Segundo as informações publicadas na época, o casal havia saído da casa de amigos e seguido para casa, onde iniciou uma discussão por ciúmes. Em 2022, o Ministério Público informou a condenação do autor a 25 anos e seis meses de prisão pelo feminicídio.
Em 13 de julho de 2022, Rayssa Aparecida Ferreira de Araújo, de 18 anos, foi encontrada morta em uma estrada de terra vicinal à MGC-120, no bairro Praia. A cobertura local mostrou que o principal suspeito era o namorado da vítima. Depois, segundo a apuração divulgada pela imprensa, ele confessou o crime e disse ter agido por ciúmes, após ver mensagens no celular dela, depois de o casal ter ido ao hospital com a filha de três anos. Em março de 2024, o autor foi condenado a 32 anos de prisão.
O caso mais recente entre os consumados do seu print aconteceu em 15 de março de 2025. Segundo o Ministério Público, a vítima foi morta com uma facada no peito dentro do apartamento onde morava com o companheiro, após uma discussão. Em fevereiro de 2026, o Tribunal do Júri de Itabira condenou o réu a 34 anos e 10 meses de prisão por feminicídio. A imprensa regional identificou a vítima como Cristina Maria Carneiro Silva, de 39 anos.
Nos casos tentados, o levantamento traz cinco registros em Itabira. Em três deles, datados de 28/02/2020, 10/10/2021 e 30/04/2022, a reportagem não encontrou detalhes públicos suficientes para reconstruir o episódio com segurança. Já no registro de 28 de setembro de 2022, a imprensa local noticiou que uma mulher de 24 anos foi atacada com cerca de 13 facadas pelo companheiro, de 37, no bairro São Pedro, e sobreviveu.
No dia 18 de fevereiro de 2025, outro caso de tentativa de feminicídio foi registrado no bairro Madre Maria de Jesus. Segundo a cobertura local, um homem de 32 anos atirou contra a esposa, de 29, que foi atingida na boca. Em seguida, ele se matou com um tiro na cabeça. O revólver foi apreendido.
E os números não ficaram no passado. Fora do recorte da planilha, Itabira voltou a ser palco de crimes brutais em 2026. Em 23 de março, Indianara das Graças Oliveira, de 29 anos, foi morta a tiros pelo ex-companheiro no bairro Praia, mesmo após já ter denunciado ameaças anteriormente. Nesta terça-feira, 1º de abril, uma jovem de 22 anos foi esfaqueada no bairro Penha e socorrida em estado grave, com perfurações nos pulmões.
O que os dados mostram é que Itabira não está diante de casos isolados. Existe um padrão. Existe repetição. Existe histórico. E existe uma cidade inteira que precisa parar de tratar violência contra a mulher como assunto secundário. Cada número da planilha tem rosto, família, medo, silêncio e muitas vezes pedidos de ajuda que vieram antes da tragédia.
Quem estiver em situação de risco pode procurar ajuda pelo Ligue 180, que funciona 24 horas por dia e também atende por WhatsApp no número (61) 9610-0180. Em casos de emergência, o acionamento deve ser feito pelo 190. Em Itabira, também existe o canal Chame a Frida, pelo WhatsApp (31) 99398-6100, criado para acolher, orientar e ajudar mulheres em situação de violência doméstica.






































































