Levantamento mostra milhões em recursos para Itabira e reforça a necessidade de transparência sobre quem indica, quem articula e onde o dinheiro é aplicado.
Emendas para Itabira devem estar no centro do debate público em 2026. Em ano eleitoral, não basta saber qual deputado aparece em foto, visita a cidade ou promete recurso. A população precisa saber quem indicou verba, quanto foi destinado, se o dinheiro foi pago, para onde foi enviado e qual político local participou da articulação.
Antes de avançar, é preciso fazer uma correção importante: o mandato atual de deputados federais e estaduais começou em 2023 e segue até 2027. Portanto, quando se fala no ciclo político de 2022 a 2026, o recorte correto é o período pós-eleição de 2022 até a disputa de 2026, e não um mandato encerrado em 2026.
A apuração feita até aqui, com base em portarias oficiais, Portal da Transparência, dados públicos de emendas e publicações de órgãos públicos, mostra que Itabira recebeu ou teve indicados recursos de diferentes parlamentares. Parte dos valores já aparece em portarias federais. Outra parte aparece em entregas públicas, anúncios oficiais ou bases que ainda exigem cruzamento para confirmar pagamento, execução e beneficiário final.
Os maiores valores identificados até agora
Entre os valores federais localizados em portaria oficial do Ministério da Saúde, um dos maiores repasses aparece ligado à emenda 39240015, de Junio Amaral. A Portaria GM/MS nº 6.367, de 27 de dezembro de 2024, lista dois valores para o Fundo Municipal de Saúde de Itabira: R$ 320 mil e R$ 2.571.000, ambos vinculados ao código de emenda 39240015, somando R$ 2.891.000.
A mesma portaria também registra R$ 1.050.000 e R$ 5.285 para o Fundo Municipal de Saúde de Itabira vinculados ao código 43150002, identificado em registros do Congresso como emenda de Bruno Farias. Somados, os dois valores chegam a R$ 1.055.285.
Outro valor identificado é de R$ 300 mil para o Fundo Municipal de Saúde de Itabira, vinculado ao código 40870002. O código aparece associado ao senador Carlos Viana em registros do Congresso e do Portal da Transparência. Embora não seja deputado, o nome entra no levantamento por se tratar de emenda parlamentar federal destinada ao município.
A portaria também lista dois repasses de R$ 100 mil e R$ 200 mil para Itabira, vinculados ao código 44730003, somando R$ 300 mil. O código aparece associado a Samuel Viana em registros públicos de emendas.
Além dos valores da saúde, o Portal da Transparência aponta pagamento relacionado à Bancada de Minas Gerais no valor de R$ 1.214.738 para Itabira em 2024. Por se tratar de emenda de bancada, o valor não deve ser atribuído a um único deputado.
Também aparece no Portal da Transparência uma emenda individual de Pedro Aihara, em 2024, com pagamento de R$ 500 mil relacionado a Itabira. Outro anúncio público apontou emenda de R$ 6 milhões destinada pelo deputado para construção de uma passarela na cidade, mas esse valor precisa ser tratado separadamente até confirmação completa de empenho, pagamento e execução no sistema oficial.
Bella Gonçalves aparece com recursos para cultura, catadores e saúde
A deputada estadual Bella Gonçalves também aparece com repasses e entregas públicas em Itabira. Em julho de 2024, reportagem local registrou R$ 500 mil em emendas: R$ 450 mil para equipamentos da Ascarmarita, incluindo caminhão, prensa e empilhadeira, e R$ 50 mil para barracas destinadas a vendedores ambulantes.
Em janeiro de 2026, Bella Gonçalves entregou simbolicamente R$ 200 mil à Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. A reportagem informou que metade do recurso foi usada para aquisição de um veículo Chevrolet Onix 2026 e o restante seria aplicado em projetos da fundação. Na mesma agenda, a parlamentar afirmou ter enviado R$ 1,5 milhão para a saúde de Itabira em 2025.
Somando apenas os valores publicamente identificados nessas reportagens, Bella aparece com pelo menos R$ 700 mil em entregas registradas para cultura, catadores e ambulantes, além da declaração de R$ 1,5 milhão para a saúde em 2025, que ainda exige cruzamento detalhado com a execução oficial.
Emendas de 2026 ainda aparecem com pendências
Em documento do Fundo Nacional de Assistência Social, Itabira aparece em 2026 com R$ 100 mil vinculados a Lincoln Portela e R$ 130 mil vinculados a Rosângela Reis. Os dois registros constam como “não cadastrado pelo município”, o que indica pendência de cadastramento da programação para seguir a tramitação.
Esse ponto é importante: emenda indicada não significa, automaticamente, dinheiro na conta ou obra executada. Entre a indicação e o benefício real para a população, existem etapas como cadastramento, análise, aprovação, empenho, pagamento, contratação, execução e prestação de contas.
Apoio político local precisa ser separado da autoria da emenda
Um erro comum em ano eleitoral é misturar três coisas diferentes: quem indicou a emenda, quem articulou politicamente o pedido e quem aparece na entrega.
O autor da emenda é o parlamentar que colocou o recurso no orçamento. O articulador local pode ser prefeito, vereador, secretário, liderança comunitária ou entidade beneficiada. Já a presença em foto ou evento não prova, sozinha, que aquela pessoa foi responsável pelo recurso.
Nos registros públicos consultados, há menções de participação do prefeito Marco Antônio Lage em agenda de entrega de emenda da deputada Bella Gonçalves à Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. Na ocasião, o prefeito elogiou a presença da deputada em Itabira e afirmou que ela “abraçou” a cidade desde o início do mandato.
Também há registros públicos em redes sociais associando o vereador Luiz Carlos à articulação de emendas com deputados como Zé Guilherme e Weliton Prado, especialmente em pautas ligadas a escola, Combem e demandas locais. Essas menções, porém, precisam ser tratadas como articulação pública declarada, não como prova automática de apoio eleitoral formal.
No caso de Pedro Aihara, há registros de agendas com a Prefeitura de Itabira e anúncio de recurso para passarela, mas a relação completa de apoio político local precisa ser confirmada por publicações oficiais, atas, prestação de contas eleitoral, registros de campanha ou declarações públicas dos envolvidos.
Por que esse levantamento importa para Itabira
Itabira é uma cidade com orçamento alto, arrecadação forte e demandas antigas em saúde, infraestrutura, assistência social, esporte, cultura, trânsito e desenvolvimento econômico. Mesmo assim, emendas parlamentares continuam tendo peso político porque ajudam a destravar compras, custeios, veículos, equipamentos, reformas e projetos específicos.
A diferença é que, agora, a cobrança por transparência ficou maior. A Prefeitura de Itabira publicou o Decreto nº 1.813/2026 para estabelecer regras de execução, acompanhamento e divulgação das emendas parlamentares recebidas pelo município. A norma prevê que informações como valor, autor da indicação, objeto, plano de trabalho e cronograma de execução sejam divulgadas à população.
O Tribunal de Contas de Minas Gerais também disponibiliza ferramenta para consulta de emendas, permitindo perguntas por município, parlamentar, órgão favorecido, tipo de emenda e área pública. A própria plataforma informa que reúne dados sobre valor, ano, parlamentar, município, favorecido e tipo de emenda, entre estaduais e nacionais.
Essa transparência é essencial porque a população precisa conseguir responder perguntas simples: quem mandou dinheiro para Itabira? Quanto foi enviado? O recurso foi pago? Foi usado em quê? Quem pediu? Quem executou? O serviço ficou pronto?
Ranking preliminar dos valores identificados
Com base nos dados públicos localizados até esta etapa da apuração, o ranking preliminar de valores individualizados identificados para Itabira fica assim:
- Junio Amaral: R$ 2.891.000 identificados em portaria da saúde para o Fundo Municipal de Saúde de Itabira.
- Bruno Farias: R$ 1.055.285 identificados em portaria da saúde para o Fundo Municipal de Saúde de Itabira.
- Bella Gonçalves: pelo menos R$ 700 mil em entregas públicas registradas para Ascarmarita, ambulantes e Fundação Cultural, além de declaração de R$ 1,5 milhão para a saúde em 2025.
- Pedro Aihara: R$ 500 mil identificados em registro do Portal da Transparência e anúncio público de R$ 6 milhões para passarela, ainda pendente de checagem completa de execução.
- Carlos Viana: R$ 300 mil identificados em portaria da saúde para Itabira, embora seja senador, não deputado.
- Samuel Viana: R$ 300 mil identificados em portaria da saúde para Itabira.
- Rosângela Reis: R$ 130 mil indicados em 2026, com pendência de cadastramento no sistema do FNAS.
- Lincoln Portela: R$ 100 mil indicados em 2026, também com pendência de cadastramento no sistema do FNAS.
Esse ranking ainda não deve ser lido como lista definitiva de todos os recursos enviados a Itabira no ciclo político. Ele mostra os valores já localizados e documentados publicamente nesta primeira etapa. Para fechar o levantamento completo, é necessário cruzar Portal da Transparência, Ministério da Saúde, FNAS, Portal de Emendas de Minas, TCE-MG, Prefeitura de Itabira e registros públicos de execução municipal.
A partir de agora, a cobrança principal é simples: Itabira precisa ter uma página clara, atualizada e acessível mostrando todas as emendas recebidas, com autor, valor, apoiador ou solicitante local quando houver, objeto, situação do recurso, data do pagamento e execução final.
Dinheiro público não pode depender de foto, promessa ou disputa de narrativa. Precisa aparecer em dado aberto, obra entregue, serviço funcionando e prestação de contas compreensível para qualquer morador.






































































