Quais deputados receberam votos em Itabira voltou a ser uma pergunta importante em ano eleitoral. Mais do que lembrar quem apareceu nas urnas, o eleitor precisa entender o que aconteceu depois da votação, quem seguiu na vida pública, quem voltou para a disputa local e por que Itabira, mesmo com nomes conhecidos, continuou sem eleger diretamente representantes para a Assembleia Legislativa de Minas Gerais e para a Câmara dos Deputados.
Nas eleições de 2022, Itabira teve seis candidatos locais a deputado estadual e três candidatos locais a deputado federal. O resultado confirmou uma dificuldade antiga da cidade: transformar força eleitoral municipal em mandato estadual ou federal. Segundo levantamento publicado após a apuração, nenhum dos nomes de Itabira conseguiu vaga na ALMG ou na Câmara dos Deputados naquele ano.
Na disputa para deputado estadual, o melhor desempenho local dentro de Itabira foi de João Izael Querino Coelho, então candidato pelo PMN. Ele recebeu 16.779 votos somente no município. Logo atrás ficou Bernardo Mucida, do PSB, com 16.492 votos em Itabira. Na sequência apareceram Carlin Sacolão Filho, com 1.904 votos; Elias Lima, com 1.870; Alexandre Banana, com 1.116; e Dalton Albuquerque, com 67 votos no município.
Quando a contagem passa de Itabira para todo o estado, o cenário muda. Bernardo Mucida somou 40.815 votos em Minas Gerais e ficou novamente na suplência. João Izael terminou com 18.833 votos no total. Alexandre Banana teve 3.119 votos, Elias Lima somou 2.274, Carlin Sacolão Filho teve 2.206 e Dalton Albuquerque recebeu 97 votos.
Essa diferença entre a votação em Itabira e a votação total no estado ajuda a explicar parte do problema. Em uma eleição para deputado, não basta ser forte em uma cidade. É preciso somar votos em várias regiões, estar em uma legenda competitiva e ainda depender do desempenho do partido ou da federação no cálculo das vagas.
No caso de deputado federal, o nome de Itabira mais votado foi Neidson Freitas, do MDB. Ele recebeu 15.401 votos no município e 20.207 votos no total em Minas. Weverton Vetão, então pelo PSB, teve 7.530 votos em Itabira e 8.548 no total. Cibele Machado, do PTB, recebeu 973 votos em Itabira e 1.180 votos em Minas. Nenhum dos três conseguiu se eleger para Brasília.
O caso mais emblemático de 2022 foi Bernardo Mucida. Ele teve mais de 40 mil votos em Minas, votação superior à de alguns candidatos que conseguiram cadeira, mas ficou fora por causa do sistema proporcional. Segundo publicação da Folha Popular, Mucida recebeu mais votos do que pelo menos nove candidatos eleitos, mas não conquistou vaga porque a eleição para deputado depende do cálculo partidário, e não apenas da votação individual.
Esse ponto costuma confundir o eleitor. Para presidente, governador, senador e prefeito, vence quem tem mais votos dentro das regras do sistema majoritário. Para deputado federal, deputado estadual e vereador, a lógica é proporcional. Primeiro, calcula-se a força do partido ou federação. Depois, dentro das vagas conquistadas pela legenda, entram os candidatos mais votados daquele grupo. O Tribunal Superior Eleitoral explica que, no sistema proporcional, os votos computados são considerados primeiro para o partido ou federação e depois para os candidatos.
Em outras palavras: um candidato pode ter mais votos que outro e mesmo assim não ser eleito. Isso acontece quando o partido dele não alcança desempenho suficiente para conquistar ou ampliar vagas. Por isso, em 2022, Itabira viu candidatos bem votados na cidade ficarem fora, enquanto nomes de outras regiões, com votação menor individualmente em alguns casos, entraram pela força das legendas.
A pergunta que muita gente faz é se algum desses candidatos virou deputado depois por alguma “manobra” política. Até onde consta nas fontes públicas consultadas, depois da eleição de 2022 não houve registro de candidato local de Itabira assumindo mandato de deputado estadual ou federal por cassação, recontagem, decisão judicial ou rearranjo posterior.
Mas existe um caso anterior que ajuda a entender por que o assunto aparece no debate local. Bernardo Mucida havia assumido uma cadeira na Assembleia Legislativa em 2021, depois de ficar como primeiro suplente na eleição de 2018. Naquele ano, ele entrou na vaga aberta pela renúncia de Marília Campos, que deixou o mandato de deputada estadual após ser eleita prefeita de Contagem. A própria ALMG registrou que Mucida assumiu a cadeira em 1º de fevereiro de 2021 e cumpriu mandato até 31 de janeiro de 2023.
Chamar isso de “manobra” exige cuidado. O termo pode sugerir algo irregular, e não há base pública para afirmar irregularidade nesse caso. O que ocorreu foi uma movimentação prevista no funcionamento político: uma titular renunciou ao mandato para assumir outro cargo, e o suplente foi chamado. Politicamente, pode ser visto como consequência de articulação partidária e eleitoral. Juridicamente, foi regra de suplência.
Durante o período em que ocupou mandato na ALMG, Bernardo Mucida teve Itabira como principal base política, segundo a biografia oficial da Assembleia. A página da ALMG também registra que ele foi vereador em Itabira de 2013 a 2016, foi candidato a deputado estadual em 2018, alcançou 34.797 votos e se tornou primeiro suplente da coligação.
Na atuação parlamentar, Mucida associou sua imagem a temas ligados à mineração, diversificação econômica e cidades sustentáveis. A ALMG registra, entre suas atividades, pedido de informações à Secretaria de Estado de Meio Ambiente sobre a operação da Vale em Itabira, especialmente em relação às garantias de segurança ambiental, considerando a operação por licença provisória desde 2016.
Depois de 2022, Mucida não voltou imediatamente à Assembleia, mas permaneceu no tabuleiro político. Em março de 2026, o Avante anunciou sua filiação e informou que ele seria pré-candidato a deputado federal pela legenda. A nota do partido destacou sua trajetória em Itabira, sua formação em Direito e Ciência Política e sua atuação anterior como deputado estadual.
João Izael também seguiu ativo. Depois de liderar a votação para deputado estadual em Itabira em 2022, mas sem conseguir mandato em Belo Horizonte, ele voltou à disputa municipal em 2024. Na eleição para prefeito, João Izael, pelo Mobiliza, terminou em segundo lugar, com 11.080 votos, o equivalente a 16,19% dos votos válidos.
Neidson Freitas, que foi o candidato local a deputado federal mais votado em Itabira em 2022, também tentou um passo maior na política municipal. Em 2024, concorreu à Prefeitura de Itabira pelo MDB. Terminou em terceiro lugar, com 4.366 votos, ou 6,38% dos votos válidos.
A campanha de Neidson em 2024 foi construída no campo da oposição ao prefeito Marco Antônio Lage. Em convenção do MDB, ele foi apresentado como candidato da coligação Frente Itabira para os itabiranos, com participação de partidos como Republicanos, PSD, PSDB, Cidadania, PP e Podemos, segundo publicação da Vila de Utopia.
Já Carlin Sacolão Filho e Elias Lima, que tentaram vaga para deputado estadual em 2022, conseguiram se eleger vereadores em 2024. Carlin, pelo Solidariedade, recebeu 1.515 votos. Elias Lima, também pelo Solidariedade, recebeu 942 votos. Ambos passaram a integrar a Câmara Municipal de Itabira a partir de 2025.
Esse movimento mostra que uma candidatura a deputado, mesmo derrotada, pode servir como teste de força eleitoral. Alguns nomes usam a eleição estadual ou federal para ampliar visibilidade, medir base, fortalecer partido e voltar depois para uma disputa municipal. Isso não significa necessariamente que a candidatura tenha sido apenas simbólica, mas mostra que, na prática, a eleição de deputado também funciona como vitrine política.
Weverton Vetão é outro caso relevante. Em 2022, ele disputou vaga para deputado federal pelo PSB e ficou atrás de Neidson Freitas entre os nomes locais. Em 2024, voltou ao cenário municipal como candidato a vereador em Itabira pelo Republicanos, segundo dados de candidatura divulgados por plataformas que reproduzem informações do TSE.
Olhando para o conjunto, a eleição de 2022 deixou três lições para Itabira. A primeira é que voto concentrado apenas na cidade dificilmente basta para eleger deputado. A segunda é que a divisão entre muitos candidatos locais reduz a chance de uma candidatura se tornar competitiva no estado. A terceira é que o partido importa muito mais do que parte do eleitor imagina.
Para 2026, esse histórico deve voltar ao centro da conversa. Itabira terá novamente nomes buscando espaço no cenário estadual e federal. A dúvida é se a cidade conseguirá concentrar votos em candidaturas viáveis ou se repetirá o padrão de fragmentação que já deixou candidatos locais bem votados, mas sem mandato.
Mais do que perguntar quem é de direita, esquerda, governo ou oposição, o eleitor precisa fazer uma pergunta mais prática: quem recebeu votos em Itabira depois apareceu para prestar contas?
Essa cobrança vale para todos. Vale para quem teve mandato. Vale para quem ficou como suplente. Vale para quem usou a eleição de deputado como trampolim para a disputa municipal. E vale também para candidatos de fora que aparecem na cidade em ano eleitoral, pedem voto, mas depois somem do debate local.
Itabira tem peso eleitoral, história política e pautas fortes, como mineração, diversificação econômica, saúde, segurança, meio ambiente, estradas e geração de emprego. O desafio é transformar esse peso em representação real. Até lá, acompanhar o que os candidatos fizeram depois da urna será tão importante quanto lembrar quantos votos cada um recebeu.






































































